O que dá valor às criptomoedas

Publicado em 22 de novembro de 2020, às 12:50.

O que dá valor às criptomoedas (What Gives Cryptocurrencies Their Value) é um artigo escrito por Peter St. Onge que foi traduzido por um de nossos colaboradores e nos foi enviado para que fosse publicado aqui.

Trata-se de um interessante artigo de 2017 [1] do Mises Institute, What Gives Cryptocurrencies Their Value, que como pode-se imaginar, investiga quais os fatores que dão valor a moedas como o Bitcoin, Ethereum, Litecoin, Monero, LBC etc.

É claro que a resposta curta e óbvia seria simplesmente “oferta e procura”, mas o texto não apenas aprofunda-se nisto, como também dá exemplos práticos.


O valor de criptomoedas como o Bitcoin, assim como qualquer outro tipo de moeda, vem fundamentalmente do que se pode fazer com ele. Como uma continuação do What Backs Bitcoin (“O que garante o Bitcoin”), eu quero me aprofundar neste valor.

A idéia, que vem do economista austríaco Carl Menger, é que, assim como o valor de uma pá vem da sua capacidade de cavar, o valor de uma moeda vem da sua capacidade de transações e para poupança.

Pense em transações como o dinheiro que você tem na carteira ou conta corrente e na poupança como o resto do que você tem no banco ou enterrado no quintal. Vale a pena mencionar aqui que esta vasta maioria da demanda por dinheiro é, de fato, a poupança, o que consiste em mais de 90% ou mais de toda esta demanda.

Isto importa porque se nós soubermos para quais transações as criptomoedas serão boas, nós podemos estimar o quanto da demanda de dinheiro elas vão começar a tirar das moedas fiduciárias ou do ouro, e daí poderemos estimar o quanto estas criptos irão valorizar.

Para as transações, algumas características importantes são o o seu custo e velocidade, anonimato, reversibilidade, risco de contraparte e regulações. Para a demanda por poupança, estes fatores são soterrados pela questão específica de quão bem a moeda mantém seu preço.

Oferta e demanda sempre determinam o preço

O preço, como sempre em Economia, é simplesmente uma questão de oferta e demanda. Quando a demanda cresce mais rápido que a oferta, a moeda vai aumentar de preço. E, se a demanda cresce menos que a oferta, o seu preço irá cair.

Desde que o Bitcoin surgiu em 2009, ele sempre se beneficiou de uma demanda aumentando muito mais rápido do que a oferta, portanto, o seu preço subiu. Enquanto isso, o dólar caiu – teve seu “preço inflacionado” – porque a demanda não conseguiu acompanhar a criação de dólares.

Isto é o que determina o preço. Agora, quais são as aplicações: pra que as pessoas usam dinheiro?

Quando nós estamos olhando para o preço de uma moeda, como estamos olhando para a demanda total, nós não ligamos para o número de transações, mas para o valor total transacionado.

E aqui, a vasta maioria do dinheiro transacionado na economia não são bens e serviços – como comprar uma xícara de café ou uma passagem de avião – mas transações financeiras. Pagamentos de salários, compras e vendas de ações, investimentos e dividendos. Estes ocorrem principalmente por transferências bancárias que representam 80% de todo o dinheiro transacionado nos EUA. Outros 15% são cheques, deixando apenas 3% para cartões de crédito e débito e 4% para o papel-moeda.

Bitcoins ainda representam menos de 0,01 % de todas transações globais

Uma parte final deste quebra-cabeças: o que compete com as criptomoedas? A maioria dos pagamentos em dinheiro feitos pelo mundo são, é claro, em alguma moeda fiduciária, como dólares ou ienes – cerca de 99% do total. Os 1% restantes são feitos em ouro.

Note que a moeda fiduciária tem tanto forma física como eletrônica, como cartões de créditos e transferências bancárias. Até pagamentos em ouro podem ser feito com papel ao invés de transações físicas com o metal, incluindo títulos baseados em ouro que são negociados no mercado financeiro (o chamado “papel ouro”).

Agora, nós estamos prontos para entender estas características para cada moeda. No custo e velocidade de transações, as taxas de bitcoins variam em torno de 1 dólar [2] e não pela quantidade transferida.

Você pode enviar 1 bitcoin, no valor de 10.000 dólares [3], ou 1000 bitcoins, que valem 10 milhões de dólares, e as taxas vão continuar sendo de 1 dólar. Em contraste, os bancos geralmente cobram uma porcentagem da transação, o que se acumula em transferências de milhões de dólares. Enquanto isso, em velocidade, o bitcoin é muito mais rápido que bancos; leva de 10 minutos a uma hora para confirmar uma transação, enquanto bancos demoram dias [4] para isto.

Então, o bitcoin ganha na aplicação mais importante do dinheiro: nas transferências financeiras. A única advertência aqui são os custos cambiais. Assim como você paga taxas e spread quando você troca seus dólares por ienes, toda vez que você troca dólares por bitcoins, você terá que pagar taxas e spreads.

Isto significa que as taxas reduzidas do bitcoin apenas são sempre melhores se tanto quem envia quanto recebe mantém o dinheiro em BTC.

As dificuldades cambiais do Bitcoin

Por outro lado, se você tem um punhado de dólares e quer comprar uma casa de alguém que mantém os seus dólares num banco, daí você vai ter que converter seus dólares em bitcoins, enviar o bitcoin por 1 conto, e daí o outro cara converte os bitcoins em dólares de novo. Você economizou na transferência em si, mas você teve que trocar o dinheiro duas vezes.

Então, o bitcoin, como tecnologia, é superior ao principal tipo de transação por valor, mas, na realidade, esta vantagem é corroída se as pessoas mantém sua riqueza em moedas fiduciárias. Isto não é realmente uma falha das criptomoedas per se, é apenas uma penalidade padrão sofrida por qualquer moeda menor – ter que pagar pela conversão para a moeda dominante.

Para terminar o custo e velocidade, obviamente o dinheiro ou ouro físico são fantásticos em ambos seus custos e velocidades, mas apenas se o comprador ou vendedor estão em contato físico um com o outro. Dado que o papel moeda corresponde apenas a 4% das transações hoje em dia, estes correspondem apenas a uma pequena parcela da demanda.

Para pedidos remotos, daí, o bitcoin tem menores taxas que cartões de crédito e débito, mas, como foi dito, tem o problema do câmbio duplo, a não ser que tanto o comprador e vendedor fiquem no Bitcoin.

Potencial de superação do Bitcoin

A seguir, veremos os benefícios secundários: anonimato, reversibilidade, risco de contraparte e regulação.

Em curtas linhas, o Bitcoin é praticamente anônimo a não ser que o estado coloque um pessoal muito determinado atrás de você. Neste sentido, é essencialmente como usar dinheiro, mas com a vantagem de que você pode usar ele por longas distâncias e com taxas pequenas.

Na prática, a alternativa mais próxima é provavelmente um cartão de débito pré-pago que você pode comprar em qualquer 7/11 [5], que pode custar alguns dólares somados com as taxas de comerciante, e pode não funcionar para grandes quantidades ou no exterior.

Enquanto reversibilidade, a questão é se o comprador pode cancelar seu pagamento. Um problema para os vendedores online é que podem ser enganados por pessoas que recebem o produto, receber pelo correio, cancelar o pedido e ficar com os bens.

Firmas de cartão de crédito ou o Paypal são famosos por ficarem do lado do cliente que pode dar o cano em um vendedor honesto que trabalha online. O bitcoin, assim como o dinheiro, é irreversível assim que confirmado – o que leva de 10 minutos a uma hora. É mais lento que dinheiro, mas mais rápido que o Paypal e os cartões de crédito, com os quais os compradores podem cancelar (chargeback etc.) meses depois.

A quarta característica é o risco de contraparte; a ideia que o seu banco pode falir, levando seu dinheiro com ele. Lembre-se que o bitcoin foi inventado no surgimento da crise de 2008, quando bancos entrarem em falência era algo comum.

Devido ao fato de que o bitcoin é distribuído através de vários computadores e não é gerenciado por nenhuma organização central, não tem como falir. Por outro lado, as criptomoedas ainda tem potencial para falhas técnicas que podem significar um risco ainda pior.

Regulação: não se, mas quando

Finalmente, tratamento regulatório. Aqui é onde nós provavelmente veremos muita mudança no curso dos próximos anos, na medida em que os governos digerirem criptomoedas como o Bitcoin.

Até o momento, as criptos desfrutaram de uma negligência quase benigna dos reguladores; tolerada, nem desencorajada ou encorajada. Do lado bom, isto significa menos encargos e impostos, embora isto esteja mudando em lugares como Nova Iorque

Do lado ruim, esta zona cinza regulatória faz com que muitas companhias ou instituições investidoras tenham medo de usar, ou até de comprar, bitcoin. Então, regulações poderiam até aumentar a demanda de bitcoin, visto que estes usuários perderiam o seu medinho. [6]

O que deve acontecer no futuro é que os países se dividam em dois lados, uns abertamente entusiasmados (Japão, Dubai, Taiwan e Suíça) e outros abertamente céticos (China, Coreia), com os EUA e a União Europeia ainda em cima do muro.

Criptos: Por hora, apenas para os viciados em adrenalina

Agora, dado o quanto as poupanças dominam o uso de dinheiro, o elefante na sala é como você se sentiria confortável passando sua poupança para Bitcoin.

Como nós mencionamos, o ponto central é como o preço vai se manter, o que significa que a demanda vai crescer mais rápido que a oferta. Ao mesmo tempo que o bitcoin derrubou o dólar e até o ouro, valorizando-se em mais de 800% apenas em 2016, este crescimento formidável veio com uma grande desvantagem da enorme flutuação desta criptomoeda, variando facilmente em 50%, pra cima ou pra baixo, em um mês.

Entretanto, como qualquer produto, serviço ou meio de troca, o valor das criptomoedas vai depender das escolhas futuras de inúmeros usuários e consumidores, baseados nos valores subjetivos das próprias moedas. Estes que podem adivinhar com sucesso o que vai se tornar mais caro no futuro vão se tornar ricos. Mas o risco sempre vai permanecer.

Peter St. Onge é um professor assistente da Fenjia University College of Business, em Taiwan. Ele é um blogger do Profits of Chaos.

Notas da tradução

Apesar de ser um bom artigo, não quer dizer que eu concorde com tudo que foi dito. Abaixo, tem algumas outras observações minhas sobre o texto:

  1. Como o artigo é de 2017. Muita coisa já rolou desde então.
  2. Esse “1 dólar” pode variar bastante dependendo do serviço que você for usar. Também, embora a taxa realmente seja realmente fixa para as transações, alguns lugares como o Eobot cobram porcentagem pelo câmbio;
  3. Era este valor na época em que traduzi o texto;
  4. Isto depende do banco, da quantia, do tipo de transferência etc. Algumas transferências bancárias podem ser instantâneas. Lembrando também que não é todo lugar que faz transferências rápidas de criptomoedas;
  5. Nos EUA. Aqui no Brasil não é tão fácil, embora já existam algumas opções;
  6. Regulação é o ca*****.

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